Ao longo da execução de uma obra, cenários inesperados deixam de ser “a exceção” e passam a fazer parte da condução do projeto. O que muda não é a sua ocorrência ou não, mas sim a forma como o executor está preparado para absorvê-los. É nesse contexto que uma gestão de riscos bem estruturada começa a mostrar sua eficiência.
Estudos recentes confirmam o que, na operação, já se tornou recorrente para os profissionais do setor . Análises da McKinsey & Company indicam que projetos de grande porte registram, em média, estouros de orçamentos na ordem de 20% a 30%, podendo alcançar patamares ainda mais elevados em projetos de maior complexidade. Esse comportamento reflete, em grande parte, a forma como o risco é tratado, ou não, ao longo da estruturação do projeto.
Quando o risco deixa o planejamento e entra na obra
À medida que a obra avança, incertezas deixam de ser premissas de planejamento e passam a se refletir no dia a dia. Ajustes de cronograma, revisões de escopo e reavaliações de custo passam a fazer parte das tomadas de decisão do projeto.
Nesse contexto, ter uma leitura sobre probabilidade de ocorrência e, principalmente, sobre o impacto financeiro de determinados eventos, passa a ser um dos pilares da gestão de risco dentro de um projeto de sucesso.
Sem esse tipo de referência, a obra avança exposta e sem clareza sobre até onde pode absorver desvios sem comprometer sua continuidade.
O papel do seguro na estruturação do risco
É dentro desse contexto que o seguro de risco de engenharia passa a assumir um papel estratégico. Para além de um mecanismo de proteção,o seguro cria uma maior clareza na identificação e entendimento das exposições envolvidas.
A contratação do seguro contribui para que possíveis acidentes possam ser financeiramente absorvidos, não eliminando a possibilidade de ocorrência, mas permitindo que seus efeitos sejam absorvidos dentro de uma lógica mais previsível, caso venham a ocorrer.
Estrutura técnica do seguro de risco de engenharia
O seguro de risco de engenharia, usualmente estruturado nas modalidades CAR (Construction All Risks) e EAR (Erection All Risks), tem como objetivo cobrir danos materiais ocorridos durante a execução da obra ou montagem, desde que decorrentes de eventos súbitos e imprevistos.
Na prática, trata-se de uma cobertura “all risks”, ou seja, parte do princípio de que todos os riscos estão cobertos, exceto aqueles expressamente excluídos na apólice. Isso amplia o escopo de proteção e permite acomodar a diversidade de exposições presentes em projetos de engenharia.
Principais coberturas e extensões
A cobertura básica está associada a danos materiais à obra, incluindo estruturas em construção, equipamentos incorporados e materiais no canteiro, conforme condições usuais adotadas no mercado:
- incêndio, explosão e danos elétricos
- eventos da natureza, como vendavais, chuva intensa e desmoronamento
- erros de execução e falhas humanas durante a obra
Além da cobertura principal, é comum a inclusão de extensões que ampliam a proteção do projeto, como:
- despesas extraordinárias para aceleração da obra
- remoção de entulho
- danos a equipamentos de construção
- cobertura para testes e comissionamento (no caso de EAR)
Responsabilidade civil e impactos a terceiros
Outro ponto relevante é a possibilidade de inclusão de cobertura de responsabilidade civil, voltada a danos corporais e materiais causados a terceiros em decorrência da execução da obra.
Essa cobertura ganha importância em projetos inseridos em áreas urbanas ou com alta interação com terceiros, onde eventos podem gerar impactos além do próprio canteiro, ampliando a exposição financeira do projeto.
cONTRATAÇÃO COMO ORGANIZAÇÃO DE RISCO
Portanto, em projetos de engenharia, o risco não é um fator a ser eliminado, mas uma variável que precisa ser estruturada desde o início. A diferença está na forma como ele é incorporado ao projeto e na capacidade de responder a seus impactos ao longo da execução. A proteção do seguro passa a integrar a própria lógica de organização do risco do projeto, contribuindo para que custo, prazo e continuidade sejam sustentados dentro de um nível preditivo.